Peça do Mês de Janeiro
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Denominação: Carta Manuscrita
Datação: 06-09-1926
Material: Papel
Medidas: 25,5x17,5
Nº inventário:1949
Chegamos aos primeiros momentos de um Novo Ano – meia-noite do primeiro Dia de Janeiro de 2026. Todas as pessoas (ou quase todas) iniciam o ritual dos nossos tempos: enviar mensagens de texto em segundos, enviar imagens partilhadas por múltiplas plataformas ou fazer telefonemas rápidos para desejar um Bom Ano. Em poucas palavras e num curto espaço de tempo, a mensagem está passada. A tecnologia tornou a comunicação mais veloz, mas também mais breve.
No entanto, esta rapidez contrasta com uma arte que durante gerações foi essencial: a escrita à mão. Para reavivar essa prática tão humana, celebra-se a 23 de janeiro o Dia da Escrita à Mão, uma homenagem ao tempo em que o papel era o principal veículo das emoções, das notícias, da informação e das saudades. Um tempo em que, por exemplo, quando os entes queridos viviam longe e a distância apenas podia ser vencida através de longas cartas, escritas com pormenor, onde se relatava a vida quotidiana com uma riqueza que hoje quase parece perdida.
Para assinalar esta data, apresentamos a transcrição de uma carta manuscrita por uma mãe ao seu filho, que no dia 6 de setembro completa cem anos. Este documento é mais do que uma simples mensagem familiar: é um fragmento vivo da história social de Porto de Mós e das transformações que marcaram a região.
Entre os vários relatos, destaca-se um excerto revelador do orgulho local:
“Sabes que andam cá a fazer uma linha de ferro desde a Bezerra até à Corredoira, passa à Souza do Zambuginho e bem pela serra da Pevide. Além tem mais de mil homens empregados, foi a melhor coisa que cá apareceu e tem valido a muita gente.”
Estas palavras testemunham a construção da linha de caminho-de-ferro entre a Bezerra e Porto de Mós, infraestrutura que, nas décadas de 1930 a 1950, se tornou essencial para o transporte de carvão das minas da Bezerra para a Central Termoelétrica de Porto de Mós. Era também o percurso que servia o antigo Couto Mineiro do Lena, um dos motores económicos da região.
A carta, escrita com orgulho e esperança, revela como estas obras transformaram a vida das pessoas, oferecendo emprego, mobilidade e novas perspetivas. Hoje, cem anos depois, permanece como um testemunho precioso da vivência quotidiana, das relações familiares e do contexto social de uma comunidade em mudança.
Transcrição:
Porto – Mós – 6-9-1926
Meu Querido Filho
Em primeiro de tudo desejo que esta minha carta te vá encontrar de perfeita em companhia de teu irmão que nos ficamos bem graças a Deus. O Joaquim já veio do Brasil porque veio de lá muito mal e não se dava bem por lá já veio á dias. Com respeito a taixa militar era bom tu apresentar porque alguns apresentaram-se e tiraram lhe por geitos, mas podias apresentares-te ahi ao cônsul e contar o que se tem feito a este respeito porque talvez te fousse bom para ti e mais para mim porque escusava de estar apagar este dinheiro e tu também, vê se podes ahi fazer isso porque os mais já o tem feito e tem valido tem de ser até ao ultimo de Dezembro porque eu não posso estar apagar alem de décimos esta grande conta. Tu sabes se me poderes mandar alguma coisa para eu a poder pagar era bom mas tu não sabes que este ano é muito mau e não temos pão quasi nenhum e azeite ainda menos e se poderes mandar alguma coisa era grande o favor mas não podendo bem basta tu não poderes a taixa deste ano já ca está porque apareceu o teu nome e numero e não tive outro remedio se não a ir pagar.
Ai te mando o papel da taixa militar e mando –te para tu veres que são 59500 e como tu sabes que eu não o posso ganhar e tu sabes que agente não o tem, e agora este ano é assim e para o ano ando por 10.000 já vez se poderes fazer algum benefia faz porque e um grande favor. Sabes que andam cá a fazer uma linha de ferro desde a bezerra até a corredoira passa a Souza do Zambuginho e bem pela serra da pevide alem tem mais de mil homens empregados, foi a melhor coisa que cá apareceu e tem valido a muita gente.
Com isto nada mais aceita muitas saudades da Maria José e do homem que é o homem Manuel Terriero(?) da Mãe e do Joaquim cá vamos vivendo quanto Deus quizer. Peço-te que assim que esta carta recebas que me escrevas na volta do correio da muitas saudades ao Emílio muitas e que me escreva também. Saudades de toda a visinhansa que sempre me pergunta por vocês. Tua mãe que um abraço te deseja Vitória V.
As cartas manuscritas são peças de história que embora sejam restritas aos destinatários, quando partilhadas são a nossa história real coletiva.

