Peça do Mês - Clister
área de conteúdos (não partilhada)Poderá parecer estranha a escolha que fizemos para a Peça do Més: o clister, mas já iremos à sua justificação. Antes, tenhamos em conta que o clister (também conhecido como enema) deverá ter a sua origem na Antiguidade egípcia e que o seu uso se generalizou no século XVII. Foi um instrumento utilizado quer na administração de substâncias por via retal, tendo como função a limpeza do intestino, ou a purga, quer na administração de medicamentos. No caso da nossa peça, este clister antigo é datado da primeira metade do século XX. E é um testemunho material de práticas de higiene e terapêutica corporal que marcaram profundamente a relação das pessoas com o seu próprio corpo. Num tempo em que a literacia em saúde era limitada e os cuidados íntimos se envolviam em reserva e silêncio, instrumentos como este revelam métodos invasivos que refletiam tanto os constrangimentos técnicos como as normas sociais da época. A sua presença em exposição, no mês de setembro, dialoga simbolicamente com três datas comemorativas essenciais — Dia Mundial da Saúde Sexual (04/09), Dia do Serviço Nacional de Saúde (15/09) e Dia Mundial da Segurança do Doente (17/09) — permitindo refletir sobre a evolução dos cuidados de saúde ao longo de quase um século.
Este objeto recorda um passado em que o corpo era frequentemente cuidado sem voz, sem escolha e sem conhecimento, num contexto em que a autoridade médica e a falta de informação moldavam práticas hoje praticamente descontinuadas. Apesar de serem muito utilizados na primeira metade do século XX, nos finais do mesmo século perderam a sua relevância, nomeadamente com o aparecimento de fármacos, como os laxantes, mais fáceis e cómodos de administrar. Ao mesmo tempo, este objeto evidencia o percurso que conduziu à valorização contemporânea da saúde como dimensão integral da dignidade humana, num mundo de informação e consentimento.
Ao ser apresentado como peça do mês de setembro, o clister torna-se ponto de partida para pensar a transformação das abordagens ao bem estar, ao conforto e ao direito à informação. Convida o visitante a reconhecer que os avanços técnicos, científicos e sociais não são apenas marcos históricos: são conquistas que moldam a forma como cada pessoa vive o seu corpo, a sua saúde e a sua cidadania. Assim, este instrumento não é apenas vestígio de uma prática ultrapassada — é memória ativa de um caminho que conduziu à afirmação plena dos direitos humanos na área da saúde e à construção de sistemas de cuidados mais seguros, mais informados e mais humanos. E testemunho da história quotidiana, da qual a História também é feita.
Denominação: Clister
Datação: 1ª metade séc. XX
Dimensões (cm): 27x11,5x11
Material: metal e vidro
Nº inventário: 6535

